Alguns acham esquisito eu ser cientista, não crer em vida após a morte, não crer em sobrenatural e, ao mesmo tempo, ser místico, como se misticismo e ceticismo fossem termos antônimos. O problema é que não são termos antônimos, podem muito bem coexistir em uma mesma individualidade e em momento nenhum a existência de um implica na exclusão do outro.
Um termo, para ser antônimo do outro, deve ter uma definição que configure em sua base o exato oposto semântico da definição de outro termo. Assim, claro é antônimo de escuro, e pelo simples fato de a claridade ter, como elemento basilar de sua definição, a presença de luz e a visibilidade, enquanto que escuro tem, por outro lado, justamente a ausência de luz e a impossibilidade de visualização. Nisso, não posso dizer que ceticismo e misticismo sejam antônimos, pois suas definições não consistem necessariamente em uma oposição, mas em percepções de pontos completamente distintos de um mesmo ponto.
Expliquemos: e se eu dissesse que Carl Sagan, Friedrich Nietzsche e Albert Einstein eram tão místicos quanto Mahatma Gandhi, Madre Tereza de Calcutá e Chico Xavier? E se eu dissesse que Silas Malafaia, Osama Bin Laden e George Bush são tão céticos quanto Richard Dawkins, Daniel Dennett e Fílon de Larissa? Esquisito? Nem tanto! O que estou falando não é nenhuma falácia, o que posso demonstrar abaixo.
Vejamos a definição de místico:
Misticismo (do grego μυστικός, transl. mystikos, "um iniciado em uma religião de mistérios"), s.m. busca da identificação consciente ou consciência idêntica à de uma plena realidade, divindade, verdade espiritual ou Deus, através da experiência direta ou intuitiva.
Agora, vejamos a definição de cético:
Ceticismo (do grego σκέπτομαι, transl. sképtomai, "olhar à distância", "examinar", "observar"), s.m., doutrina que afirma que não se pode obter nenhuma certeza absoluta a respeito da verdade, o que implica numa condição intelectual de questionamento permanente e na inadmissão da existência de fenômenos metafísicos, religiosos e dogmas.
Ou seja, não se excluem. Abordam lados distintos de um mesmo objeto. Dá para ser místico sem ter religião, como é bastante possível ser religioso e ser cético. Se acham ainda que as definições acima (eu poderia usar a de qualquer dicionário) se excluem, vamos então para uma tabela de verdade simples. Levando em conta de que a definição de misticismo ocorre por disjunção (partícula "ou"), então podemos ter a seguinte estrutura: M = (B → ((Er → (I → (R v D v E v U)))), em que Er = experiência direta ou intuitiva com a realidade, B = busca, I = identidade consciente ou consciência, R = realidade plena, D = divindade, V = verdade espiritual, U = Deus (se lerem novamente, verão que a maior parte desses termos, na parte sintática que define o objeto do misticismo, o operador lógico utilizado é "ou" (notado "v").
Desenhando,na tabela de verdade de uma condicional, todas as relações são verdadeiras, exceto quanto há uma condição verdadeira para um resultado falso, enquanto que em uma disjunção, todas as assertivas são verdadeiras, exceto quando todos os termos da disjunção forem completamente falsos. Desenhando, fica assim:
Condicional
|
Disjunção
| ||
A
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B
|
A → B
|
A v B
|
V
|
V
|
V
|
V
|
V
|
F
|
F
|
V
|
F
|
V
|
V
|
V
|
F
|
F
|
V
|
F
|
Em uma relação "Se A então B" (A → B), qualquer conclusão falsa que derive de uma premissa verdadeira invalida o argumento, mas uma premissa falsa pode levar a uma conclusão falsa, e isso validará o argumento. Eu posso, para invalidar um argumento falso A, demonstrar que sua conclusão condicional B é igualmente falsa, assim mostrando que a falsidade de A acarretará na falsidade de B. Mas, se para validar meu argumento, eu lançar mão de um argumento condicional em que A seja verdadeiro, mas B seja sabidamente falso, então o próprio argumento condicional se mostrará inválido, e usá-lo será desonestidade (o que chamamos de falácia). Viram? Ninguém precisa decorar termos em latim para aprender a identificar falácias!
Na definição de Misticismo, encontramos uma sequência de três relações condicionais. Vejamos, Carl Sagan buscava algo (por meio da ciência). Logo, a primeira premissa é verdadeira. Segundo, a busca de Carl Sagan era uma experiência direta com a realidade (sem interpretações ilusórias). A segunda premissa é verdadeira. Terceiro, Carl Sagan tinha consciência de sua identificação com a realidade plena (não se colocava como um ser em separado do universo que estudava). A terceira premissa é verdadeira. A quarta premissa (R v D v E v U), para ser considerada verdadeira ou falsa, exigirá que verifiquemos seus elementos.
Pelo que percebemos, em um argumento por disjunção, o todo será verdadeiro se pelo menos um de seus termos formadores for considerado verdadeiro. Sabidamente, Carl Sagan não buscava encontrar Deus ou qualquer outra divindade, nem almejava uma verdade espiritual (apesar de eu ter uma concepção bem própria a esse respeito). Porém, ele buscava compreender e entender seu lugar na derradeira realidade (o próprio fez considerações metafísicas em muitos de seus textos, e metafísica é o estudo da derradeira realidade), o único termo verdadeiro. Se há pelo menos um elemento verdadeiro, então o argumento de que Carl Sagan era místico é verdadeiro.
O problema do neoateísmo
Antes que venham alegar blasfêmia, vamos entender que muitas vezes deslocamos os verdadeiros significados dos termos para que, com isso, possamos espalhar nossa "doutrina". Assim como é interessante aos fascistas modificar sentidos políticos, aos politicamente corretos modificar o sentido de gírias sociais e aos líderes religiosos modificar sentidos de termos relativos a comportamentos, é de interesse dos líderes do neoateísmo modificar o sentido das palavras para que posam facilitar a manipulação de uma massa.
No caso do neoateísmo, o termo Misticismo foi esvaziado de seu sentido original de forma forçada, e depois preenchido pela definição do termo Esoterismo.
Esoterismo, s.m., nome genérico que designa um conjunto de tradições interpretativas e filosóficas para os símbolos e rituais religiosos, sobre os quais as doutrinas das religiões buscam desvendar seu sentido supostamente oculto e completamente dependente da aceitação cega da validade dos mesmos símbolos.
Como podem perceber, o termo que melhor se colocaria como oposição a Cético seria o termo Esotérico. Misticismo, em sua definição, abarca tanto monges benditinos como astrofísicos ateus, indo de pastores neopentecostais até os mais altos graus de agnosticismo. Enfim, é um termo mais abrangente.
E por que os neoateus, sabendo dessa distinção (que encontra-se nos dicionários de filosofia, nos dicionários comuns, na Wikipedia e no Aurélio) insistem em causar confusão entre Esoterismo e Misticismo? Por que o neoateísmo presta tão pouca atenção à diferença entre Místicos e Esotéricos? Como um grupo formado por céticos eruditos, que experimentam e põem a prova tudo o que ouvem, e que se valem de pesquisa profunda acerca de tudo o que inserem em seus argumentos, consegue cometer tamanho deslize em causar confusão em duas palavras simples e largamente utilizadas? A única causa que consigo visualizar no momento é a política.
Assim como os Nazistas fizeram com os judeus, Napoleão fez com os alemães, o McCarthismo fez com os comunistas, a Ditadura Militar fez com os marxistas e o Apartheid fez com os negros, varrer para debaixo do tapete a exatidão das definições que podem ameaçar as posturas políticas do neoateísmo é uma atitude que interessa aos neoateus. Dawkins nunca teria o interesse político em admitir que algumas religiões orientais e algumas filosofias ocidentais são praticamente um Ateísmo Cético com mais tempo de estrada, pois isso poderia enfraquecer o poder que ele teria sobre sua legião de "fãs". Se metade dos neoateus caísse em si e debandasse para o Taoísmo, Dawkins não teria mais poder sobre metade de seus "seguidores".
O neoateísmo, para justificar o ataque a TODAS as formas de espiritualidade, sem nenhuma distinção entre elas, e para reafirmar que TODAS as formas de espiritualidade são igualmente danosas (preconceito religioso + homogeneização do objeto de ódio), lançam os significados de uma palavra sobre outra, fazendo o que os fascistas, os politicamente corretos e os líderes religiosos praticam há anos. Essa mágica da metamorfose das palavras deturpa definições para justificar as falácias do neoateísmo. Não interessa aos neoateus que o Budismo ou o Taoísmo sejam saídas espirituais válidas para quem baseia sua vida na dúvida em vez da fé, o que interessa a eles é que, no Ocidente, tenhamos o costume de dar a eles o nome de religião, mesmo que, de fato, não se comportem como tal.
Porém, o neoateísmo tem um comportamento bem comum a todas as religiões, comportamento esse que costuma afetar a quase totalidade dos praticantes de qualquer tradição espiritual ou filosófica, seja essa tradição o Budismo, o Cristianismo, o Marxismo, o Islamismo ou qualquer outra: o Fundamentalismo. Os neoateus são fundamentalistas, organizam-se em clubes com aparência de igrejas (com rol de membros, aclamação, prática de testemunhos de desconversão e uma visão fechada de mundo) e acreditam piamente (assim como todos os fundamentalistas) que TODOS os seres humanos serão felizes apenas quando TODOS forem como eles: neoateus.
Agora me digam: quem comete falácias? Um espírita místico que ajuda o próximo e respeita suas crenças individuais, ou um neoateu irritadinho que tenta tirar das pessoas aquilo que as faz felizes?
Em tempo, o Dicionário de Filosofia de Japiassú define misticismo como:
ResponderExcluirmisticismo
1. Crença na existência de uma realidade sobrenatural e misteriosa, acessível apenas a uma experiência privilegiada — o êxtase místico — uma intuição ou sentimento de união com o divino, o sobrenatural, o misterioso.
2. Em certas doutrinas filosóficas, como o neoplatonismo de Plotino, a experiência mística possui um papel central como forma de acesso à realidade de natureza divina. Essas doutrinas são consideradas. por esse motivo, como irracionalistas. Oposto a intelectualismo, racionalismo.
Notem que ele não definiu "místico", mas "misticismo", ou seja, não definiu uma característica inerente ao sujeito, mas uma postura filosófica.
Bom, texto Félix. Me fez pensar sobre coisas que nunca tinha pensado. Eu já tinha reparado mesmo que alguns ateus tem uma raiva virulenta com relação à religião. Conheço vários e estou sempre tentando explicar que eles estão empregando conceitos de forma genérica e imprecisa sem querer saber que estão caindo em erro. Se eu cito os termos sagrado, religião, fé ou coisas do tipo, mesmo que não seja me referindo ao significado usual que os cristãos dão a eles, pronto....caras se fecham, vozes ficam mais ásperas e palavras mais ofensivas. Acho que é exatamente isso que vc falou...alguns se fecham à essas diferenças por ser mais confortável, mais conveniente. Alguns é falta de informação mesmo. É como o religioso que já treme ao ouvir o termo ateu mas nem sabe direito o que é o ateísmo, e nem quer saber. Eu já falei sobre budismo várias vezes em gupos do facebok para ateus e agnósticos e sempre vem uma meia dúzia de ateus falando que budismo é um lixo como qualquer outra religião, afinal, é uma religião, e religião é lixo. Isso, tristemente, me lembra muito a postura dos comunistas que invadiram o Tibet e fizeram um massacre lá. A atitude generalista e desrespeitosa de declarar que toda religião é veneno é a mesma. Isso me decepciona às vezes. Eu sempre fui a favor de que os ateus fossem militantes no que diz respeito a não abaixarem à cabeça para os absurdos religiosos...mas parece que aos poucos está sendo criada uma outra doutrina, ou um grupo engessado... :(
ExcluirFelipe,
Excluirvamos lembrar que são geralmente os que menos entendem suas próprias ideologias que as deturpam. Darei o exemplo do que ocorria na igreja evangélica, quando eu ainda era evangélico. A essência do protestantismo é Deus criou o homem, o homem pecou, o pecado condena o homem, o homem crê no sacrifício de Deus, e Deus perdoa o homem, e não precisa de mais nada para ser salvo. Pronto, absurdamente simples. Porém, os protestantes aprenderam a inserir novas doutrinas: para ser salvo, não pode beber, não pode trepar, não pode falar palavrão, tem de ir à igreja todo domingo, não pode ser gay, tem de se submeter à hierarquia sexista, etc, etc, etc.
Se a essência do ateísmo é Nega-se que Deus existe até que haja prova do contrário, o Bule Voador diz: ateus de verdade tem que ser gays, de esquerda, vegetarianos, militantes e a favor do aborto. Ou seja, inseriram algo que seria simples e tornam complexo.
Fizeram isso com o Budismo (há coisas desnecessárias nele), no Islamismo, no Xintoísmo, e até mesmo na Umbanda. Sempre que se insere algo além da essência, esse algo é desvirtuado.
A raiva contra a religião por parte de uma parte dos ateus é um exemplo de agregações inúteis, pois ateísmo é tão somente negar a existência de Deus até que se prove o contrário, e não posição contrária à religião, até porque existem religiões ateístas, e laicismo teístas.
Mas não se preocupe, o que mais aprendemos na prática diária da tolerância é que o outro pode não estar certo, mas o que importa é que ele esteja feliz e não interfira na felicidade do outro.